sexta-feira, 1 de abril de 2011
O embrulho da criança sem nome
A criança sem nome, dedos sujos de tinta e um sorriso nos lábios, olhava, fascinada, as fotografias de mamãe e papai. Aos 20 anos, Laura Helena Rosolen estava bem na foto. Sobre o ombro nú, brilhava, dourado, o pingente do brinco. O batom rosa salientava o branco dos dentes. Seu olhar levava a crer que ela estava realizando um sonho: aparecer no Estadão. A criança sem nome suspirava; quase podia sentir o cheiro da mãe. Ao ver papai, desviava os olhos. Era bom se as fotografias não estivessem lado a lado. Aos 27, Donizete Bastos, ainda mantinha o olhar de menino assustado, para quem o mundo é vasto demais. A criança sem nome tinha sido poupada de maiores detalhes. Ninguém havia mencionado junto a ela coisas como "visita íntima", "tráfico e formação de quadrilha", "homicídio". Como tinha 3 anos, não sabia ler. Assim, ao se deparar com a manchete, pensou que onde se lia "detento" estava escrito "Donizete". Onde se lia "namorada", acreditou ter lido "Laura". Ninguém lhe ajudou a corrigir o equívoco. Nem perceberam. O que acontece com uma menininha quando papai estrangula mamãe? Num canto, restava à criança sem nome usar o papel jornal para embrulhar, sozinha, sua perplexidade.
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