sexta-feira, 1 de abril de 2011

O embrulho da criança sem nome

A criança sem nome, dedos sujos de tinta e um sorriso nos lábios, olhava, fascinada, as fotografias de mamãe e papai. Aos 20 anos, Laura Helena Rosolen estava bem na foto. Sobre o ombro nú, brilhava, dourado, o pingente do brinco. O batom rosa salientava o branco dos dentes. Seu olhar levava a crer que ela estava realizando um sonho: aparecer no Estadão. A criança sem nome suspirava; quase podia sentir o cheiro da mãe. Ao ver papai, desviava os olhos. Era bom se as fotografias não estivessem lado a lado. Aos 27, Donizete Bastos, ainda mantinha o olhar de menino assustado, para quem o mundo é vasto demais. A criança sem nome tinha sido poupada de maiores detalhes. Ninguém havia mencionado junto a ela coisas como "visita íntima", "tráfico e formação de quadrilha", "homicídio". Como tinha 3 anos, não sabia ler. Assim, ao se deparar com a manchete, pensou que onde se lia "detento" estava escrito "Donizete". Onde se lia "namorada", acreditou ter lido "Laura". Ninguém lhe ajudou a corrigir o equívoco. Nem perceberam. O que acontece com uma menininha quando papai estrangula mamãe? Num canto, restava à criança sem nome usar o papel jornal para embrulhar, sozinha, sua perplexidade.

domingo, 13 de março de 2011

A dançante revolução do amor

Preguiçosa do almoço de domingo, ela procurava cenas de filmes na internet. Não buscava nada específico. Dava preferência àqueles que, sendo leves, não agregariam dificuldades à digestão. Abria, fechava, abria, ria um pouco, fechava; nada de grandes emoções. Acabou se lembrando da cena final de Dirty Dancing e optou por vê-la inteira. Mesmo nessa hora do dia, um pouco de romance não iria mal. Já antecipando o prazer de ver os atores dançando, a princípio não entendeu bem a grande quantidade de ofertas do que parecia ser a mesma cena. Por que tanta gente se daria ao trabalho de postar a mesma coisa no YouTube? Fiel ao vagabundo espírito anterior, começou abrir várias abas. Foi aí que os viu. Lílian e Victor. Atilla e Carol. Celo e Mari. Rose e Gilmar. Jen e Tony. A mesma música, diferentes edições da mesma coreografia. Esquecida do camarão, da preguiça e da vontade de ver ficção, passou a, sistematicamente e com afinco, pesquisar os vídeos. Tinham muito em comum. Cenário: Festa de casamento. Figurino: terno e vestido de noiva. Público: divertindo-se, feliz. Passou a fazer comparações. Lílian sorria mais bonito do que Jennifer Grey. Atilla não era tão charmoso quanto Patrick Sawyze, mas, para ele, nobody puts his Carol on the corner. O filme era de 1988, mas, em 2010, ainda dava o tom da emoção. Às vezes, é bonito quando a vida imita a arte.

sábado, 29 de janeiro de 2011

O frentista da Frei Caneca

Foi no dia em que conseguiu o emprego de frentista na região da Paulista que ele, finalmente, se sentiu aceito em São Paulo. Não que tivesse tido problemas em conseguir trabalho. Simpático e falante, tinha sempre um pacote para fazer, um chão para varrer, uma louça para lavar. Na Frei Caneca, era cada carrão que só vendo. Cada vidro lavado uma festa. Mais que um trabalho, era um privilégio! Vestir a camisa da empresa era inevitável. Mantinha tudo brilhando, mas limpar era uma coisa, desperdiçar, outra. Quando um pipoqueiro ou outro vinha lhe pedir emprestada ou a chave do banheiro ou uma panela d´água, só atendia se tivesse ao menos uma lata velha, do tipo que consome bastante combustível. Bom colaborar para o lucro certeiro, um emprego como aquele não se perdia. Quando, no feriado de 25 de janeiro, o moço lhe pediu um favor, o primeiro que notou é que estava a pé. Tinha cacos na testa e no olho direito, mas aquilo não era vidro de carro; parecia garrafa. Pela quantidade de sangue, ia ser necessário gastar muita água. o pior, jogar fora o pano depois. A julgar pela aparência, não era mais nenhuma criancinha, se aproximava dos 30. Que cuidasse da sua cara com seu próprio dinheiro. Tivesse pensado melhor antes de andar por aí com este negócio de gay.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O que ela gostava era de ficar por cima

De shorts e camiseta cavada, a jovem parecia caminhar pela casa com desenvoltura. As levíssimas sandálias de tiras realçava a tranquilidade com que ia e vinha. Já adultos, os filhos do marido não mais compartilhavam do mesmo endereço. Livre, leve e solta, tinha poucas satisfações a dar. Talvez, por isto mesmo mantinha uma prudente distância dos negócios de seu marido. Ao menos, era isso o que dizia todas as vezes que alguém cobrava dela uma postura mais decidida. Saber ela sabia, mas não interferia; se necessário, varria para debaixo do tapete. Varrer, aliás, era uma atividade a qual dedicava grande parte de seu dia. E, depois da vassoura, o pano úmido. Por fim, a flanela com o lustra-móveis. Gostava de sua casa, fresca, arejada. Lá, poeira não tinha vez. Ao que parece, até o porão ela limpava, sem se importar que, nas casas, os porões são costumeiramente usados para guardar os trastes sem serventia. Para isto, aliás, é que eles serviam, ela acreditava. Nas casas, a existência da parede que no térreo é chão e no porão o teto demarca a tênue linha do visível e do invisível. Gostando de ser vista, ela descia e logo subia. Quase nunca falava daquilo que o porão guardava, a mulher de seu marido. Sem problemas, ela gostava mesmo era de ficar por cima.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A velha estrela do telejornal

Foi deitada em sua cama que, aos 65 anos, ela apareceu na televisão. Não devia se importar com a fama, pois mal levantou a cabeça. Não foi mencionado que estava doente, mas, o bolor da parede atrás dela combinava com a falta de brilho em seus olhos. Estava sem dia nem noite, sem primavera nem verão, sem passado nem futuro. Há 16 anos, não saía dali. O telejornal não esclareceu como ela acabou sendo descoberta em seu porão. Enquanto o âncora narrava, a câmera limitou-se a mostrar o marido, não só dono de seu coração como da chave da porta de saída. Quando decidiu trancá-la, ele tinha a privado do mundo ou privado o mundo dela? Ou será que tinha se ofertado um mundo livre de sua presença feminina? Tentando justificar o injustificável, o marido explicou, cândidamente: ela tinha problemas mentais. Cada panela, sua tampa.

Uma mulher que tinha razão

As expectativas eram grandes; ela não se tomava por uma qualquer. Aguardava o reconhecimento na justa medida do seu esforço. Tanto era, que tinha antecipado a promoção para quem interessar pudesse, não poupando, inclusive, quem não se interessava. Ela se tinha em alta conta. É verdade que, como não era desprovida de qualidades, por toda parte, sempre aparecia um elogio sincero. Era sempre precedido ou seguido de uma frase como "Se não fosse...". O que as reticências encobriam era a dificuldade de conviver com, digamos, aqueles traços do seu caráter que costumam levar os homens a sintetizar suas impressões laconicamente: que louca. Ao saber que a colega menos formada, porém, mais simpática, havia sido galgada ao almejado posto, não pensou duas vezes: demitiu-se. Pensar mais de uma vez não era mesmo o seu forte. Aguerrida, não gostava de levar desaforo para casa. O que ela gostava mesmo era de ficar com a razão. Ter as verdades como única companhia? Talvez façam sucesso no mercado as verdades que possam massagear as costas, dar carinho, esquentar os pés.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Pai nosso, que estas no céu, a guerra dos sexos nos dai hoje

Seis horas da tarde, e era em São Paulo. Com a filha adolescente prudentemente colocada no banco traseiro, ele tentava voltar para casa. Era bom motorista, mas acreditava nas leis de trânsito. Assim, seguia o outro com olhos atentos, tarefa que, para ser bem sucedida, teria exigido muitos olhos. Nos lados, na frente e atrás, lá estava o outro, o potencial infrator. Ele, que amava a ordem, não podia com isso. Foi aí que ela aproveitou a brecha. Via um lerdo em potencial em cada um dos motoristas. Irritava-se quando, na sua avaliação, eles não eram tão espertos quanto deveriam ter sido. Quando vislumbrou a distância prudente que ele mantinha do carro da frente, logo entendeu se tratar de uma oportunidade para chegar ao destino na frente dele. Sem pestanejar, ignorando o trânsito e suas leis, cortou-o pelo lado da filha. Ela não iria esperar homem algum. Pagou caro pela ousadia. Como o trânsito não andava, ele pôde ficar na sua cola em todo resto do percurso, buzinando, gesticulando, apontando todas suas falhas. Por fim, separam-se, profundamente solitários e infelizes. É que ele não era homem de ser deixado pra trás por mulher alguma. Ela, por sua vez, não seguia homem nenhum.